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Nos 100 anos do mineiro Lúcio Cardoso, sua obra máxima: Crônica da Casa Assassinada (publicado em 1959), livro que está entre os 10 melhores que já li. Como bem disse Manuel Bandeira: “O dom poético, o dom de criar vida, atmosfera, de armar os lances imprevisíveis e patéticos do destino. Na Crônica da Casa Assassinada culminou essa força demiúrgica de Lúcio. Os personagens do romance - Nina, Valdo, Ana, o coronel, o farmacêutico, o incrível Timóteo, todos continuam a viver na minha imaginação, inapagáveis”.
1. DIÁRIO DE ANDRÉ (conclusão)
18 de … de 19… - (meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de refazer neste mundo a caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo - “era assim que ela beijava” - naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos - todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre - o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma - o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas…
Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto - e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria - comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo - não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência - a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nosso amores e de nossas traições - a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido - quando? - num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito do que tanto carecemos.)
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“Quando você é nocauteado, a sensação não é ruim”, prossegue ele. “Na verdade, é uma sensação boa. Você não sente dor, só se sente fortemente inebriado. Você não vê anjos nem estrelas; você se sente numa névoa agradável. Depois que Liston me acertou em Nevada, senti, por uns quatro ou cinco segundos, que na verdade todos no estádio estavam juntos comigo no ringue, rodeavam-me como uma família. Quando você é nocauteado, sente carinho por todos. Você se sente amável para com todos. E tem uma vontade de levantar e beijar todo mundo - homens e mulheres -, e depois da luta com Liston alguém me disse que, do ringue, eu mandei um beijo para a multidão. Eu não me lembro disso. Mas acho que é verdade, porque é assim que a gente se sente durante quatro ou cinco segundo depois de um nocaute…”
“Mas aí”, continuou Patterson sem parar de andar, “esse sentimento agradável acaba. Você se dá conta de onde está, do que está fazendo ali e do que acaba de acontecer com você. E o que se segue é uma dor, uma sensação nebulosa - não uma dor física -, uma dor combinada com raiva; é uma dor do tipo o-que-é-que-as-pessoas-vão-pensar; uma dor de quem sente vergonha pela própria incompetência… e a única coisa que a gente quer é um alçapão no meio do ringue - um alçapão por onde pudesse cair e ir para diretamente no vestiário, para não ter de sair do ringue e encarar aquelas pessoas. O pior de perder é ter que sair andando do ringue e encarar aquelas pessoas…”
- Trecho de O Perdedor, perfil do boxeador Floyd Patterson escrito pelo jornalista Gay Talese e publicado no livro “Fama & Anonimato” (Companhia das Letras). Patterson descreve aqui sua derrota para Sonny Liston ao defender o título mundial de pesos pesados em 1962. Mas seu depoimento descreve o sentimento de todo atleta de alto nível ao encarar uma derrota. Não importa qual o esporte. E o 12 de agosto em Londres 2012 nos mostrou mais uma vez isso de uma maneira particularmente dolorosa.
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Música da Semana
Década explosiva romântica.
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Música da Semana
“Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar” - Caetano Veloso, 70 anos
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Música da Semana
Os fãs de música fofa que me perdoem. Mas Fiona Apple é fundamental.
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130 notes View comments (via rainwillstrengthenyoursoul)

Julian Barnes - O Sentido de um Fim
Eu me lembro, em ordem aleatória:
- do brilho da face interna de um pulso;
- do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro;
- de gotas de esperma girando em volta de um ralo, antes de serem tragadas e descerem pelo cano de uma casa alta;
- de um rio correndo sem sentido contra a corrente, o movimento das águas iluminado por meia dúzia de lanternas em perseguição;
- de outro rio, largo e cinzento, a direção de sua corrente disfarçada por um vento forte agitando a superfície;
- da água do banho já fria por trás de uma porta trancada.
Este último não é algo que eu vi de verdade, mas o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu.
Nós vivemos no tempo - ele nos prende e nos molda -, mas eu nunca achei que entendia isso muito bem. E não me refiro a teorias de como ele se dobra e volta para trás, ou se pode existir em outro lugar em versões paralelas. Não, eu me refiro ao tempo comum, rotineiro, que os relógios nos mostram que passa regularmente: tique-taque, clique-claque. Existe algo mais plausível do que um segundo ponteiro? E, no entanto, basta o menor prazer ou dor para nos ensinar a maleabilidade do tempo. Algumas emoções o aceleram, outras o retardam; às vezes, ele parece desaparecer - até o ponto final em que ele realmente desaparece, para nunca mais voltar.
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Música da Semana
A Música da Semana passada foi entregue ao acaso. Hoje, voltamos à programação normal. Ou seja, meu arbítrio.
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